Perfil de um jovem circense

Roger Querubim de Souza completou 18 anos, é solteiro, cursa o 3º semestre da faculdade de Artes Cênicas e tem um Playstation 2. Em seu quarto estão porta-retratos, um aparelho de som, laptop, lençóis desarrumados e meias pelo chão. Acorda cedo para ir às aulas e já trabalha. “Eu não arrumo minha cama, porque depois eu vou dormir e vai bagunçar de novo”, justifica. Leva o que ele próprio chama de “uma vida normal”, típica de um jovem da sua idade. O que o diferencia são os detalhes: seu dormitório é um trailer, costuma usar maquiagem com frequência e o emprego toma seus finais de semana. Ele é Buguinho, um palhaço de circo. E não é maluco.

“Muita gente acha que pessoas do circo são meio loucas, diferentes do normal, mas isso não é verdade”, diz. “Eu posso receber amigos no trailer, sair para ir ao cinema, ir a festas... Desde que não interfira no que fazemos aqui dentro, o circo é bem liberal. É só não fazer discrepância”. Insano ou não, seu crescimento certamente se diferencia do processo vivenciado pelo adolescente considerado ‘comum’ aos olhos tradicionais. Roger nasceu no dia 24 de setembro de 1990 na cidade de Araraquara (SP) durante um período no qual o Circo Spacial, onde toda sua família trabalha e vive – sendo sua tia Marlene Olímpia Querubim, a fundadora e proprietária – se apresentava naquela cidade. Ainda criança, seu tio, o também palhaço Pingolé, já o levava para o picadeiro para que o rapaz se acostumasse com a presença da plateia.

Seguiu assim até os 12, quando começou a exercer a função de ajudante de palco. “Ninguém me explorava com trabalhos, eu é que gostava de participar. Isso fez com que meu amadurecimento acontecesse mais rápido do que o das outras crianças da minha idade”, explica. Foi cerca de um ano depois, porém, que sua carreira começou a tomar forma quando o parceiro de espetáculos de seu tio teve que viajar. “O Pingolé me chamou para fazer uns ensaios e participar de alguns shows junto com ele e aí o que era para ter durado um mês ficou até hoje”, lembra. “O problema é que muitos acham que eu só estou lá por ser da mesma família, mas eu tenho dado o meu melhor”, afirma. “Tem que saber dividir parentes, amigos e trabalho”.

Há coisas, no entanto, que não tem como separar. Seu nome artístico virou Buguinho porque sua mãe, Maristela Querubim, que já foi bailarina, trapezista e mágica, por vezes se apresentava vestida de macaco, mais conhecido como Bugão. Daí para o júnior foi só um diminutivo. Nesse clã circense ainda estão sua irmã, Jéssica A. Querubim de Souza, 17, que se apresenta no número conhecido como ‘tecido’, e seu pai, Roberto de Souza, que opera como auxiliar geral da companhia. Todos eles vivem mudando de cidade junto ao espetáculo, mas Roger decidiu fixar-se em São Paulo para facilitar seus estudos. “Eu vim morar aqui por opção. Fico durante a semana, mas no sábado e domingo vou para onde o circo estiver para me apresentar. Aí na segunda-feira cedinho, eu volto para cá e vou direto para a aula”, conta. Em razão disso, muitas de suas contas, que são pagas nas segundas feiras - dia de folga para os artistas-, são descontadas de seu próprio bolso. É o caso das faturas de telefone celular, saídas para se divertir e outros “luxos”. “No meu trailer, meus pais não me ajudam. Já a faculdade são eles que pagam”, explica. “Isso tudo fez muito bem para mim. Agora estou juntando dinheiro para comprar um carro”.

Mudanças
Ainda durante a infância, Roger conta que houve um ano de sua vida no qual ele passou por nove escolas diferentes. “Era difícil ficar um bimestre inteiro em uma escola, porque nós viajávamos muito”, recorda. Por essa razão, seus amigos mais íntimos também são circenses. Isso, no entanto, nunca fez com que ele sequer cogitasse abandonar os estudos. Segundo ele, a própria comunidade do circo incentivava as crianças para que continuassem a aprender. Por isso, em períodos em que eles ficavam curtas temporadas em alguma cidade, os mais velhos se reuniam para lecionar para os mais novos. Foi assim que ele e seus companheiros “cresceram unidos”.

Enquanto isso, na vida fora do circo, seus colegas de colégio continuavam no mesmo lugar que estavam havia anos, criando rotinas, grupos de amigos, indo a festas... Essas questões chegaram a incomodar Roger quando ainda criança. “Agora o que interfere é essa coisa de não poder sair de final de semana, porque, na maioria das vezes, o pessoal se reúne aos sábados para fazer alguma coisa”, diz. “Mas isso passa. Quando você entra no palco, você esquece tudo. Eu faço o contrário dos outros: curto durante a semana e trabalho no fim de semana. Quer trabalho melhor do que esse, se divertir e ainda ganhar dinheiro?”, desabafa. “Eu dificilmente trocaria essa vida por outra. Tem seu lado difícil, claro, mas tudo tem a sua recompensa. O circo é minha família”. No caso de Roger, literal e metaforicamente.